quando a gente já não dá mais conta

Só agora que terminou o mes eu estou começando a ler a Claudia de junho, que eu nem sei porque assinei. Ah tá, lembrei: ficou barato.

Quando ela chega eu dou uma folheada de meia hora e esqueço. Um dia eu preciso ler alguma coisa e saio caçando uma revista. E leio de pouco em pouco.

Um pouco durante o café da manhã, enquanto a cozinha está em silencio e os filhos ainda não levantaram para a escola.

Outro pouco enquanto espero alguem se arrumar pra sair.

E faço marcas nas páginas, risco a caneta o que eu acho bacana/improvavel/sem noção, arranco paginas que talvez interessem a alguem e elas ficam ali, caídas no fundo da bolsa até que eu encontre a pessoa para poder entregar.

Bem e porque é que eu to falando da Claudia mesmo?

ahhh eu li hoje o artigo da Danuza Nossa Guru Leão, E nós Acreditamos.

É sobre um monte de coisas que nos enfiam pela goela abaixo e nós bobinhas nos esforçamos pra atingir aquele padrão.

Em troca de que? Aplauso? Reconhecimento?

Em troca de que mesmo a gente quer convencer que é a mulher maravilha da vez, e que dá conta de cuidar do trabalho, da casa, familia, e ainda ficar com a unha impecável e tempo de sobra pra desenvolver aqueles projetinhos de artesanato, cuidar do jardim, ler as quatro revistas do mes, e sabe-se lá o que mais né?

Tambem estou cansada de artigos sobre mulheres que falam que não se desligam do trabalho quando vão pra casa e trabalham 18 horas por dia! Aliás a revista está cheia de matérias assim…

Ao contrario das workholics,  eu me desligo do trabalho sim, e como!

Quando saio do trabalho, deixo em cima daquela mesa cinza toda as pendencias do dia e só lembro delas no dia seguinte. Ou não.

Porque eu tento levar casa-trabalho na boa a maior parte do tempo, mas em algum minuto que eu nunca sei qual será, as coisas desmoronam e eu estou cansada demais pra reagir.

Olho pra mim mesma ao final do dia e vejo que não sobrou tempo pra ir comprar a pecinha que falta pra fazer um colar, não passei no sapateiro, a ração da doga está acabando, eu não tenho um pingo de vontade de preparar o almoço do dia seguinte, tenho que encher a maquina de roupa e eu só tenho vontade de tomar um banho e ficar em off até o dia seguinte.

O artigo da tia Danuza lavou minha alma. Me sinto menos culpada de não dar conta de tudo as vezes.

Afinal,  gente tem o dever de acreditar numa mulher de 79 anos que ainda fica bonita de jeans e camisetinha…

E A GENTE ACREDITOU

  

Texto publicado na seção Inspiração, Conversa com Danuza, revista Cláudia.

    “Quantas mentiras nos contaram. Foram tantas que a gente bem cedo começa a se achar burra, incompetente e sem condições de fazer uma vida de sucesso, cheia de vitórias e felicidades. Uma das mentiras: que nós, mulheres, podemos conciliar perfeitamente as funções de mãe, esposa, companheira e amante e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante. É muito simples: não podemos.

     Se você se dedica de corpo e alma a seu filho recém-nascido, que na hora certa de mamar dorme e à noite, quando deveria estar dormindo, chora, com fome, é impossível estar sexy para cumprir um dos papéis considerados obrigatórios, o de amante. Aliás, nem o de companheira; quem consegue trocar uma ideia sobre política se não teve tempo de fazer as unhas?

      Mas a humanidade está aí, querendo convencer as mulheres – e os maridos – de que um peixinho com ervas ao forno com uma batatinha cozida al dente,acompanhado de um vinhozinho branco, é facílimo de fazer e que assim o casamento continuará tendo aquele toque de glamour de filme francês. Ah, quanta mentira.

      Outra diz respeito à mulher que trabalha; não à que faz de conta que trabalha, mas a que trabalha mesmo. No começo, ela até tenta se vestir no capricho, usar salto e estar sempre maquiada, mas cedo se vão as ilusões. Entre em qualquer local de trabalho às 4 da tarde e vai ver um bando de mulheres maltratadas, com o cabelo horrendo, sem um pingo do glamour da executivas da Madison (nos filmes). Dizer que o trabalho enobrece; isso pode até ser ver dade. Mas ele também envelhece, resseca a pele. Não adianta: uma mulher glamourosa e pronta a fazer todos os charmes – aqueles que enlouquecem os homens – precisa, fundamentalmente, de duas coisas: tempo e dinheiro. Tempo para hidratar os cabelos, fazer mechas, praticar  musculação, comprar uma sandália nova, depilar; e dinheiro para tudo isso e ainda para pagar uma boa empregada, o que também custa dinheiro. 

       É interessante a imagem da mulher que depois do expediente, vai ao toalete – um toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria, retoca a maquiagem, coloca os brincos e sai alegremente para a happy hour. Aliás, se as empresas trocassem a iluminação de seus ele vadores e banheiros por lâmpadas âmbar, os índices de produtividade iriam ao infinito; não há autoestima feminina que resista quando elas se olham nos espelhos desses recintos.   

      Felizes são as mulheres que têm cinco minutos – só cinco – para decidir a roupa que vão usar no trabalho. Na luta contra o relógio, o uniforme termina sendo preto ou bege para tudo combinar sem que um só minuto seja perdido. Mas tem as outras, com filhos já crescidos: Quando chegam em casa, têm de perguntar com foi o dia na escola, procurar entender por que  eles estão agressivos. 

     E ainda há aquelas que têm um namorado que apronta, mas acham  que não conseguem viver sem ele, apesar de um grande cientista ter descoberto que só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar,  água e pão. 

     Convenhamos que é difícil ser um mulher de verdade; impossível mesmo, eu diria”.

Ah, a edição de julho ainda está lacrada, esperando por uns minutos de folga.

e este foi o post de numero 1300.

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Sobre coisadelilly

mulher, mãe e esposa, workaholic; uma inconformada com a situação mundial; uma pessoa que ama cães, caminhar, ir a liquidações, comer jujubas; viciada em seriados americanos; prendada mas sem tempo de colocar em pratica suas habilidades; desprovida de inveja e más intenções; uma pessoa que adora joaninhas, pink, flores, romantismo, craft, musica; um pé no presente, um no passado, a cabeça no futuro; uma pessoa nada facil; que tenta se livrar do saco de ossos de vidas passadas, que vive o agora; que esqueceu o que não devia e lembra o que não quer; uma pessoa na versão enciclopédica 2.0 que não pode ser resumida.
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15 respostas para quando a gente já não dá mais conta

  1. Eu que não trabalho fora já me vejo doida com uma criança,uma pré adolescente e uma adolescente,5 cachorros ,7 gatos ,uma avó que eu amo ,mas que ama contar histórias no meio do meu trabalho doméstico ,um avô com alzheimer que cisma que tem que sair de carro quando nem sabe quem eu sou as vzs e um marido que viaja e quer festa em toda chegada .Aff!!!
    Adorei o post realista ,nós mulheres somos muito cobradas ….Beijos no coração!

  2. Adorei!Nós somos cobradas e nos cobramos muito também.Sabe que tenho uma colega pediatra que quando sai de férias,pede para a secretária dizer que foi a um congresso,porque os clientes aceitam isso melhor do que a ideia de que ela foi passear e descansar com a família?
    Hoje trabalho bem menos que há cinco anos atrás,quando Carol ficou internada.E mesmo assim,não dou conta do que tenho que fazer.Tem armário bagunçado para arrumar,roupas com botões por pregar,livros que eu queria ler.Mas não me martirizo mais com isso não.Não fico tentando cronometrar o tempo,como aquele programa Fly Lady.Tem dias em que me dou o direito de ficar no ócio,mesmo que no dia seguinte tenha que correr atrás do prejuízo.

  3. Mima D. disse:

    Este texto da Danuza sempre me atraiu muito, Lilly…
    Mas confesso que ainda não consigo me desligar de certas coisas, e nem workaholic sou, mas fico bem encanada quando ACHO que estou falhando com as tarefas diárias (mesmo sabendo que isso sou só eu quem pensa e que nem tão cobrada sou assim pela relação “família no trabalho”…)
    Enfim… aprender a mudar, me esforçar…
    Bjs

  4. Simone Schmidt disse:

    Lilian, um abraço, sempre.
    Olha que nem sei se gostei mais da coluna da Danuza ou do teu post.
    Tudo de bom. Luz e paz.

  5. Fabiola disse:

    Pois é, é isso mesmo, sem tirar nem pôr.
    Beijo,

  6. cris disse:

    a mais pura verdade. no fundo , cabe a nós não nos deixarmos cobrar tanto ( sabe, distribuir algumas bananas de vez em quando, seja la pra quem for)pois a verdade é que se a gente não se der o devido valor, ninguem vai dar, seja marido, seja filho, e nem é de proposito não. é que o povo fica tão acostumado com uma “super” dando conta de tudo, que não se dão conta de que nos colocam sob uma baita de uma pressão, daí ja viu, né…
    beijo!

  7. jaqueline disse:

    Nossa me identifico, estou tão cansada de trabalhar, tudo anda tão pela metade, minha casa, meu sono, rsrsr conto os dias para acabar e me tornar só do lar!

  8. Marcia disse:

    Esta semana me senti culpada durante todo o tempo pq so enrolei, nao fiz nada que possa ser considerado util. Ou melhor, fiz sim! Fiz minha unha, pintei e hidratei o cabelo, fiquei muuuuito na net. Mas nao conte pra ninguem, ja pensou oque vao pensar??rsrsrs

  9. formaplural disse:

    Sensacional seu post! Essa ficha me caiu há algum tempo, mas definitivamente assumi faz uns 3 meses. Sim, a gente consegue lidar com uma diversidade enorme de assuntos, mas não damos conta de tudo e é um absurdo nos cobrarmos isso. Às vezes, rola a baixa de alguma planta, o feijão queima porque vc está escrevendo um e-mail para o cliente, se atrasa pra pegar o filho na escola…É assim mesmo. A parte mais complicada disso tudo, que foi justamente por isso que resolvi dar uma desligada, é quando você deixa de rir e achar graça das coisas, porque o peso tá grande demais. Beijo

  10. http://vivendoemmarilia.blogspot.com disse:

    Oi Lilly, voltei com um novo blog, espero contar contigo de novo, bjs

  11. Marta disse:

    Que ALÍVIO saber que não estou só.

  12. Olá Lilly é a primeira vez que visito seu blog e vamos falar amei tanto esse texto que publiquei no meu blog http://www.depoisdostrinta.com.br fazendo referência tanto a revista quanto ao teu site. Me enxerguei nele menina. Sucesso Adriana

  13. Lorena disse:

    Lily,
    me identifiquei! Juro que tento dar conta, mas:
    – trabalhar 9h por dia,
    – foras as duas horas que utilizo para ir e voltar ao trabalho,
    – os extras que faço,
    – a especialização,
    – o maridão que insiste em espalhar roupa pela casa,
    – a cachorrinha que é um xodó mas solta um pelo danado pela casa,
    – a casa para arrumar,
    – a academia (que sai porque não estou mais conseguindo conciliar, mas tô sentindo tanta falta),
    – as unhas e cabelos que tem que ficar impecáveis,
    – o trabalho voluntário,
    – o carro para lavar,
    – o jardim para cuidar,
    – dar conta das escolhas de tudo para a reforma da casa que tá bonbando,
    – café para os pedreiros,
    – estar linda e descançada para sair com maridão nos finais de semana,
    UFA!!!!
    tô cansada só de lembrar.
    É, vida de mulher já pode até ter sido fácil, mas hoje jogo uma pedra em quem afirmar isso!!!!
    Tem dias que a vontade é de pedir para o mundo parar e eu poder descer!!! rsrs

  14. Realmente a gente foi enganada por longos anos. Felizes as mulheres do século XIX. Mas confesso: adoro trabalhar. E eu quero atrair homens bem mais interessates do que aqueles que desejam ter ao seu lado uma boneca.
    Parabéns pelo post. Bjus

  15. Pingback: Blog Retro 2012 | Isso é coisa de Lilly

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