quem nunca pensou sobre isso pelo menos uma vez na vida?

eu ando nuns dias meio hard.

no trabalho, o serviço monótono se acumula.

o que eu adoro fazer, só posso à noite (pensaram mal de mim??? estou falando das aulas do curso online, pípol!), ando numa correria braba.

então cheguei hoje  depois do almoço, a vontade era mesmo de ter ficado em casa, assistindo tv e dormitando ao lado de baby cat…abro o mail e leio uma crônica linda, mandada pela Soninha.

a Soninha é uma figura. chega todos os dias abraçando todo mundo. quando fazemos aniversário, ela entra na sala cantando a musica do Carequinha ( está na hora de apagar a velinhaaaa…), está sempre de bom humor.

ela é a cara e o jeito da Sil do mundo cor de abobora, com a diferença dos cabelos: os da Sil são grisalhos e os da Sonia são vermelhos.

vermelho gritante, como ela, que quando ri lá no fim do corredor a gente escuta.

bem, li a cronica e vi que já pensei algumas vezes sobre este assunto, mas nunca tive talento pra expressar.

Caí no mundo e não sei como voltar

de Eduardo Galeano

O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.

Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.

Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.

Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

E mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.

E acontece que em nosso nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.

Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.

Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? O afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de … anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava…

Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor…. É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com “guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa”, mudar para o “compre e jogue fora que já vem um novo modelo”.

Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado… E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas… por amor de Deus!

Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher, e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?

Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos…

Como guardávamos! Tuudo! Guardávamos as tampinhas dos refrescos! Como, para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette – até partidas ao meio – se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos do que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia “esta é um 4 de paus”.

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem ‘matá-los’ tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: ‘Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora’, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!

Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.

Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.

Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.

Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.

Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à ‘bruxa’, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a ‘bruxa’ me ganhe a mão e seja eu o entregue…

Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940) é um jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História

é isso: as vezes me incomoda a forma como uma coisa se  torna descartável tão logo apareça algo mais moderno.

eu tambem não sinto necessidade de trocar meu celular por um que se conecte à internet pois eu tenho notebook, nem que tire fotos, pois eu tenho camera, e nem que me desperte, pois eu tenho o gato que me acorda as 6:15, quando meu proprio relógio falha e não desperto as 5:50.

eu sou tão plu-ga-da e ao mesmo tempo tão medieval…

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Sobre Lilian

mulher, mãe e esposa, workaholic; uma inconformada com a situação mundial; uma pessoa que ama cães, caminhar, ir a liquidações, comer jujubas; viciada em seriados americanos; prendada mas sem tempo de colocar em pratica suas habilidades; desprovida de inveja e más intenções; uma pessoa que adora joaninhas, pink, flores, romantismo, craft, musica; um pé no presente, um no passado, a cabeça no futuro; uma pessoa nada facil; que tenta se livrar do saco de ossos de vidas passadas, que vive o agora; que esqueceu o que não devia e lembra o que não quer; uma pessoa na versão enciclopédica 2.0 que não pode ser resumida.
Esse post foi publicado em coisas que passam na minha cabeça, eu tenho que comentar!. Bookmark o link permanente.

8 respostas para quem nunca pensou sobre isso pelo menos uma vez na vida?

  1. Marcia disse:

    Acho que podemos conviver com novas tecnologias sem descartar tudo, sem substituir tudo por novos modelos. Ate mesmo pq a blogosfera é o lugar onde mais aprendi a reaproveitar, reciclar, reutilizar e economizar, atitudes que as geraçoes passadas nao precisaram aprender, era algo inerente ao comportamento. E sim, eu tenho mais de trinta e poucos…

  2. ok,ok…ele exagerou um pouco, mas a essência e creio que o objetivo do texto é nobre. Mas prezo pelo equilíbrio, que minha mãezinha me ensinou apesar de ser da geração do ‘guarda-tudo’. Essa geração, em geral, guardava tanta coisa que a casa virava um lixão impossível de se organizar. Ao invés de somente guardar, temos que dar destino util às coisas que não jogamos no lixo: fazer doações, reciclagem (graças a Deus aqui em Goiânia a prefeitura faz a colheta reciclável), doar nossas roupas que não são mais usadas (tem gente que nem doa e quando doa está toda rasgada) e por aí vai. Muito legal eram os brinquedos que fabricávamos nós mesmos no quintal (tive sorte de pegar o finzinho dessa geração) e que o autor descreveu tão bem (aliás, achei os antigos costumes no Uruguai bem parecidos com os nossos, né?)
    Todo mundo deveria ler esse texto…

  3. Emília disse:

    Lilly, entendi a intenção do autor do texto, mas guardar, guardar coisas também é doentio. Prá tudo é necessário o equilíbrio. As vezes no desejo de economizar, cortamos o frasco do creme para usar tudo que está no frasco e se a gente se machucar com a tesoura na hora de cortar o tal do frasco? E pelo jeito ele tem mania de colecionar e se ele for uma colecionador desorganizado a casa dele vai virar um lixão. Na TV a cabo é possível ver casos de pessoas assim e suas casas acabam se tornando um local de risco a saúde pública, muitos adultos são considerados até inaptos para ter crianças em casa.

  4. eda disse:

    Adorei o texto, e me ajudou a entender a minha mãe e o porque dela ser como é! é da mesmissima geração do autor do texto. Mas me esforço para manter minhas amizades e familia até que caduquemos juntos… me orgulho da maioria das minhas amizades ter mais de dez anos.

  5. Marluce disse:

    Adorei a crônica, vou imprimir e mostrar pro meu pai, tenho certeza que ele vai se identificar muito
    Beijos

  6. Samantha disse:

    Gostei muito do artigo, não por que fala de juntar coisas (que eu odeio), mas por que tem como foco principal a facilidade que a nossa sociedade tem hoje em dia de trocar, trocar tudo, estamos vivendo os tempos do quanto mais fácil melhor, afinal agente acha que não tem tempo pra nada. Legal pra repensar algumas coisas.

  7. Olá Lilly!
    Venho aqui para agradecer os comentários deixados em meu blog meiarrastao.blogspot.com e dizer que este endereço não existe mais, o conteúdo do blog foi importado para meu novo endereço: thefastfashion.blogspot.com. O objetivo é que este novo endereço se case com a loja virtual que estou construindo. Aguardo novas visitas. Obrigada, abraços.

  8. Andressa disse:

    Muito lindo, Lilly!

    Como eu sou uma jovem – idosa (minha mãe diz isso: Andressa tem 29, com corpinho de 15 e cabeça de 98!), entendo perfeitamente. Aliás, nessa linha, sugestão de leitura é o maravilhoso livro de Alberto villas, “Admirável Mundo Velho” . Tenho certeza q vc vai amar!

    Bjks

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